domingo, 21 de abril de 2013

O docente e a identidade profissional: alicerce da educação



Muito se questiona acerca do trabalho docente. Há, no seio da sociedade, o ideário de que o professor é um ser “divino” dotado de dons especiais capazes de repassar às outras pessoas ensinamentos. No entanto, o que essa mesma sociedade esquece (ou quer que os próprios professores esqueçam) é que a docência não é um dom divino, mas uma profissão árdua e merecedora de reconhecimento como todas as demais existentes.
Uma pesquisa feita pela UNESCO (2004) acerca do perfil dos professores brasileiros, revela que a maioria deles é formada pelo sexo feminino, que ganha em torno de dois a dez salários mínimos e que auto discrimina e auto desvaloriza a própria profissão.
            O dado preocupante nessa pesquisa é que a autodiscriminação e a autodesvalorização da própria profissão provocam, diante do cenário social, uma deterioração dos próprios docentes. É preciso que nós, enquanto professores formadores de opinião, convençamo-nos de que o magistério não é algo doado, mas uma profissão.
            Uma das justificativas para tal visão dos próprios docentes, segundo essa mesma pesquisa, é de que os professores, pressionados por baixos salários, por uma formação precária - geralmente aquém das condições concretas de vida de muitos de seus alunos e do meio em que atuam (provocando, muitas vezes, a frustração) – e pelo pouco ou inexistente acesso a bens culturais, além de outras disparidades sociais, culturais e econômicas que configuram a sala de aula e que deixam os docentes isolados enquanto classe e gera neles um processo de perda de identidade profissional que vem se agravando gradativamente dia após dia. Segundo Libâneo (2003), a dignidade e a identidade profissionais precisam ser resgatadas urgentemente para que o professor se sinta motivado e passe motivação para seus alunos; pois, uma vez desmotivado e  subjugado a um sistema e sem uma identidade profissional ele se menosprezará e poderá desestimular os próprios discentes.
            Muitos dos educadores, no entanto, preferem o comodismo a buscar alternativas de ensino, porque não basta apenas o docente tomar conhecimento dos seus problemas. É indispensável que ele tome consciência e possa mobilizar também os seus saberes docentes para melhorar a sua própria condição profissional. Já que professor é, conforme Tardiff (2002), “alguém que sabe alguma coisa e cuja função consiste em transmitir esse saber aos outros”.
            Esse saber docente, ainda segundo Tardiff (2002), é um saber plural, pois é formado por um conjunto de outros saberes, tais como: os saberes profissionais, oriundos da formação profissional (transmitidos pelas instituições de formação de professores - saberes científicos e pedagógicos); saberes disciplinares; curriculares e; experienciais. Essa mesma pluralidade de saberes faz com que o professor ocupe uma posição estratégica nos meandros das complexas relações que ligam as sociedades contemporâneas aos saberes que elas produzem. No entanto, o saber docente e a própria docência ainda são desvalorizados. Isso ocorre, sobretudo, porque o professor ainda não procurou se impor diante da sociedade a qual faz parte, enquanto profissional que é.
            O que se percebe é que a questão do conhecimento dos educadores ainda está muito presa à questão da profissionalização do ensino e aos esforços que os especialistas na área têm em definir a natureza, a origem dos conhecimentos profissionais que servem de diretrizes para o magistério.
            Faz-se necessário que o profissional da educação, sobretudo o professor, encare a si próprio como um sujeito competente, capaz de produzir os saberes específicos à sua labuta diária. Para isso, é preciso que ele reveja seu próprio papel de educador, além de repensar as concepções tradicionais relativas às relações teoria x prática docente. Assim, possa ser que ele repense sobre a sua função social, sobre o ensino e sobre a sua própria organização do seu trabalho no ambiente escolar.
            Nesse repensar, o docente deve rever o seu agir, a sua atuação, a fim de que ele deixe de aplicar apenas o conhecimento teorizado por outros (geralmente pesquisadores universitários) e passe a produzir o seu próprio conhecimento teórico, ou seja, ele poderá elaborar o seu próprio material didático e utilizar os recursos dos quais dispõe para adaptá-los ao seu trabalho. Por exemplo, se o professor for dar uma aula sobre literatura de cordel, ele poderá fazer, juntamente com os alunos, os próprios cordéis; além disso, ele também poderá elaborar adaptações literárias, entre outros exemplos. O importante é ele não se prender aos livros didáticos para ministrar sua aula. Agindo assim, o professor encarará o ensino sob uma nova perspectiva e, quiçá, encare a docência como uma profissão tão importante à sociedade quantos as demais e não como uma dádiva.



EHRICH,  Isaías de Oliveira. Entre os apitos da casa-de-força, a barragem: da análise textual à sala de aula. Campina Grande: UFCG, 2009. P. 216-218.(Dissertação. Mestrado em Literatura e Ensino)

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