quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Distintos doeres

De um, material;
De outro, sentimental.
Distintos, nossos doeres
Se uniram e nos ligaram.
Contradições da vida e seus "quereres"!

Reflexos do espelho do outro
Nossas personas doídas e já quase ocas
Sujeitadas tornaram-se Seres.
Ternura de um, acalento a outro
Ternura do outro, acalento a um,
Sentimentos de cuidado com zelo e mal intento algum.

Nossas dores, nos gritaram fortes
Nossas angústias, beijaram a morte
Mas, hoje, nossas vozes  roucas
Balbuciam sonhos e cantam prazeres
De um porvir
Tão urgente a nos sorrir.

Dorme em nosso colo a esperança
E tem a tez de criança.
Transpirando acalento e paz.
E   o teu ressonar nos traz
A lembrança dos sonhos adormecidos
Que o tempo, em seu bornal fechado, deixou de nós esquecidos.

Nesse contratempo dos nossos não-tempos
Aquietam-se nossas dores.
Nossos bons anseios ganham novos sabores.
Adormecem nossos receios
Pois juntos estudamos meios
Para nos sararmos
E, mais unidos, as mãos nos darmos.
Nossas personas, agora reais
Têm almas boas, sentimentais!

domingo, 17 de novembro de 2013

A FAMÍLIA DE SAGUIS

           Há algum tempo atrás, vivia no alto da Serra de Santa Catarina, uma família de saguis, também conhecidos como soinhos. Uma espécie de macaquinhos que vivem a fazer danações.
              Certa vez, Chico, o pai daquela família, pediu a Coceirinha, seu filho mais novo, que ele o ajudasse a colher seriguelas e cajaranas para alimentar a família. Preguiçoso para o trabalho que era, Coceirinha disse que aquilo era exploração do trabalho infantil e se recusou a ir ajudar o pai.

             Outra vez, Dona Chicona, esposa de Chico, pede a sua filha, Beiçudinha, para ajudá-la a arrumar a casa. Beiçudinha, que só ligava em ver o que ocorria nas redes sociais, disse estar muito ocupada e que ajudar a mãe nos afazeres domésticos era exploração do trabalho infantil e não foi auxiliar a sua mãe. 
                     O tempo passava  Chico vivia se matando, trabalhando para prover o sustento da família. Como não sabia ler, nem escrever, Chico tinha que se contentar com os míseros trocados que recebia e ainda tinha que agradecer a Deus, pois emprego estava cada vez mais difícil.
               Já adolescente, Beiçudinha começa a namorar e engravida. O seu namorado vai morar com a família de Beiçudinha, que agora vive com o benefício do Bolsa Sagui, um programa social que auxilia aos mais necessitados.
                  A jovem sagui, mesmo grávida, continua não ajudando em nada a sua mãe nos trabalhos da casa. Continua passando o dia deitada em uma rede (e o seu namorado em outra), apenas vendo as atualizações em sua página do facebook e conversas sem fundamentos com as amigas, através do WhatsApp.
            Coceirinha, segue o exemplo da irmã e nada faz. O tempo passa e eles vão passando pela vida, sem sonhos ou planos para o futuro.
              Alguns anos depois, Dona Chicona e Seu Chico não conseguem mais trabalhar como antes, devido à idade. Mesmo assim, os filhos insistem em esperar que eles façam tudo.
          Um dia, aparece uma oportunidade de trabalho para Coceirinha, mas ele não sabia fazer nada e não tinha coragem para o trabalho.
            Beiçudinha, rodeada de filhotes, também queria trabalhar, mas também não sabe fazer nada e culpa seus pais.
                  Dona Chicona, olha para os filhos e diz:
             _ Meus filhos, errei em não exigir que vocês não ajudassem a mim e ao vosso pai. O que vocês diziam que era exploração do trabalho infantil, era apenas uma forma de vocês criarem responsabilidade; uma forma de vocês aprenderem algo e tivessem disciplina. Hoje, estão sendo cobrados pela vida. E não adianta dizer que é exploração de nada, é apenas ela ensinando à força, sem pena, sem abrandamentos e sem fazer nada por vocês.
Texto de: Isaías Ehrich

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O lúmen dos meus olhos

O lúmen dos meus olhos obscureceu-se no vazio
da ausência de um amor.
Numa correnteza de lágimas, o sentimento, hoje, vadio
transita nas profundezas da dor.

Reticências de uma pausa forçada
que tua ira desmedida e sem razão
Arrancou do meu peito, do meu coração
a pureza de sentir a vida de minh'alma refletida
nos vitrais de teu olhar
descaradamente a me contemplar
em gestos, afagos e beijos na boca pelos teus adoçada
fazendo dos nossos chacras sacros, nosso ponto de partida
sem hora, sem pressa ou vontade de chegada.

 O lúmen dos meus olhos obscureceu-se no vazio
da ausência de um amor.
Numa correnteza de lágimas, o sentimento, hoje, vadio
transita nas profundezas da dor.


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Feridas n'alma

Verdejante olhar de anjo Acalenta com ternura e paz Apascenta a dor que esbanjo Com a calma dos verbos que traz.
Em "Verdade chinesa" conversamos Dores comuns, experiências ruins compartilhamos D'amores remotos, remorsos trevosos confabulamos Mas é a esperança que almejamos!
Sofrestes feridas n'alma Mesmo assim, tua voz branda, terna, calma Exprime a força de um jovem do Senhor Machucado com as descrenças do amor.
Porém, no recôndito do teu ser Ainda reinam as marcas desse sofrer adormecidas, acabrunhadas, acalentadas Para que lá fiquem e não voltem a fazer Da vida desse jovem verdadeiro padecer.

Isaías Ehrich

sábado, 5 de outubro de 2013

POEMA DA OBEDIÊNCIA

Quis fazer a travessia
Sofrer as punições dos Umbrais
Sucumbir de uma vez esses meus doloridos ais
Fatigada minha vida parecia
Era assim que eu me via...
Mas uma fada humanizada interveio
E ordenou que eu procurasse outro meio
De dar prumo à minha vida
Por hora tão sem rumo.
Em um terno acalanto
Não sei se feitiço, hipnose ou encanto
A danada  insistiu e conseguiu
Um sorriso do meu ser arrancar
Era triste, amarelado, mas saiu.
Assim diminui mais meu chorar.
Outro mítico ser me interpela:
_O que houve, que aperto ‘indapouco’ eu senti?
Sem explicação, parei e rezei pra ti.
Respondi que era nada, apenas vontade de partir
E dele ir sem me despedir.
...
É dolorida essa angústia que me corrói
Eu sei que ela tão intensa me destrói.
...
Interrompido meu encontro com a morte
Não sei se agradeço tamanha sorte
Mas rememorarei tempos d’antes
De quando a dor era do ramo de salsa
Ou do mufumbo verde cipó
Que minha avó, como punição,
Para melhorar minha má educação
Sassaricava-os em mim sem dó.
Como era bom aquele tempo
Em que as dores logo passavam
As lapiadas em poucos dias se iam
Mas hoje são outras dores
Mais profundas e amargas
Hoje é peito, antes eram as penas que doíam
Mas é assim, dos amores

Há também dores e dissabores.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Narciso monstruoso

O teu autorrespeito de nada adiantou.
 Respeitando a si, a mim profundamente machucou.
Brincar com sentimentos de quem diz que amou
De que serve? Descartou!
Fez-me de capacho o teu “amor” viril
Provou a mim, que teu caráter é vil.
Sou um tolo romântico infantil.
Sonhador e fiel fui
Mas de nada lhe serviu
Porque você, Narciso monstruoso, não passa de um ser  vil!

Recolhi pedaços sentimentais,
Espalhados entre os estilhaços de meus ais.
Ternura, respeito,  meiguice,
 Paixão, carinho, acalanto,
Amor próprio e meu próprio amor, além de meu encanto
Por alguém que amei, que ainda amo tanto
Guardei tudo ali num canto
Onde dormem reminiscências de minha meninice.
Tudo isso adormecerá
 E assassinarei  em mim qualquer resquício disso, que teime em escapar
Pois de nada servem entulhos escombrados,
Empoeirados no tempo e amargurados no brado
De dor, dessabor e desamor que,  de tão forte,  foi expelido
E de tão intenso aos ecos, silenciado.
Embora, dentro de mim,  isso tudo e muito mais,
Insista em bradar  e questionar: é loucura demais!
Clamo a Deus, peço força e paciência
Porque intimamente sou  penitência.
Choro, choro, choro, sofro, vou ao fundo do poço
E entre soluços lacrimais quase morro.
Uma chama em mim se acende
E ao longe uma vaga fresta de esperança
Motivando-me a ser Fênix, de repente.

Essa brecha tem o nome de VINGANÇA! 

Isaías Ehrich

terça-feira, 24 de setembro de 2013

LEVE

Sem saber por quê, sentindo-me leve!
Que se eleve em mim
Esse meu leve sim.
Que a vida, transbordando em alegrias, paz e fé
Faz,  dentro de mim, balé.
E esse meu íntimo pueril dançar,
Num ritmo dissolutamente breve,

As voltas que a vida, em nós, dá.


Isaías Ehrich

domingo, 22 de setembro de 2013

AINDA NÃO ENTENDO OS SEUS PORQUÊS

O sangue que da boca escorreu
Trouxe junto o amor que você perdeu
Medo, angústia e fobia
Era mais dolorosa a decepção que sentia.

Tantas juras de amor proferidas...
Mentira!
Eram injúrias a mim escondidas!
Que despertaram-me IRA.

Sem razão, você matou minha emoção
Não entendo os seus porquês
Meus sonhos, alegrias e sorrisos não sei por onde estão
Fiz-me capacho do seu querer.
Desfiz-me para te satisfazer
Ocultei-me para te enaltecer
E você apenas me usou a bel-prazer.

Ainda não entendo os seus porquês.
Não sei se por decepção ou por prazer
Sua gana de posse e poder
Fez, num ímpeto de fúria, o nosso amor pelo esgoto escorrer.


Isaías Ehrich

A Ira do Amor

A ira do amor
É mais intensa que a delícia de amar.
A ira do amor
Faz-me esquecer teus acalentos
Adormece em mim bons sentimentos
Nutridos por você em gozo amor.
Hoje estão postos ao relento
Expulsos de mim pela ira do amor.

Atrevida traição me fez ter
Envolvida num tesão proceder
Desculpada por um leso querer
E à tua dona Razão enaltecer
O tão nobre mesquinho ser.

Sobejado de minha paixão
Teu amor, minha imensa emoção
Soterrada por teu instinto querer.
Hoje, a vingança me clama
Para dela seu guerreiro ser
E a ela minha única esperança
de novamente eu me SER.

E a ira do amor
Em meu íntimo sussurra:
"_Vinga-te da traição e da surra!
_Faça-o sentir intensamente tua dor!"

É a ira do amor:
A vingança alimentada com rancor!

Isaías Ehrich

TERNA ANTÍTESE

Rasgando fibras, músculos e alma
A navalha da transgressão
Fere, corta, mutila, corrói.
Aflorados sentimentos, inflamados e sem calma
Que ainda pulsam no estagnado coração
Onde os sangrados/sagrados momentos de amor remói.

Hematomas no íntimo bem marcados, amor,
Onde o lilás amor, hoje dor,
Descoloriu-se, avermelhou
E, num intenso febril fulgor, arroxeou.
E a antes ternura, anti ternura  virou.

Pedidos de perdão já me foram solicitados
Em tons de saudade um sim me roubou
Mas a grande ferida aberta no íntimo não cicatrizou
Fotos sentimentos, momentos e peito rasgados

Emoção, razão e rancor
são díspares ímpares flagelados
A antes ternura, anti ternura virou!

Pois a antes terna ternura
Forte anti ternura estou

Anti ternura sou!

Labareda da Ira

Um gemido profundo pelo ar se vai
Solavancos de leves a intensos na cama
Confundem-se com um pedido que, aos poucos, se inflama:
"_ Por favor, para! Ai!"

O colchão amacia movimentos
Uma voz impetuosa corta o meio-silêncio:
"_ É pouco ou quer mais?"
Um chuveiro se abre e aplaca o incêndio
Que a labareda da ira aumentou por um momento,
alimentando-se com muitos ais.

O quarto em penumbra continuou
A madrugada atônita calou
Para que os sussurros dos corpos falassem
E sangue a suor se misturassem.

E essa união não era amor
Era íntima e externa dor!

Isaías Ehrich

Reticências de Silêncios

As tuas razões não entendo.
As minhas emoções não compreendes.
Em nossas intenções enlouquecemos.

Assim nosso amor se fez:
Inebriado em nossa maluquez.
Misturado a uma emoção racional se fez.
Constrangido por uma razão emocional se desfez.

Entre reticências de silêncios vou vivendo.
Às exclamações interrogativas de tua razão, pendes.
Em nossos travessões esquecemos
Que nossos sonhos
Pontuados com amor
São agora vazios tristonhos
Lacunados numa dor.

Isaías Ehrich

SEMPRE TEMOS UMA RAZÃO


Sempre temos uma razão para sonhar
Sempre temos uma razão para amar
Sempre temos uma razão para vingar
Sempre temos uma razão para louvar
Sempre temos uma emoção para deixar
Sempre temos uma emoção  para  levar
Sempre temos uma emoção para a razão pairar.

Sempre temos uma razão e uma emoção para sofrer
Sempre temos uma razão para vencer
Sempre tive uma emoção para você!
Sempre temos uma razão para crescer
Sempre tive intimidades com você.
Sempre temos uma razão para descrer
Sempre temos uma razão para crer!

Sempre temos uma razão para fugir
Sempre temos uma emoção a outra emoção unir
Sempre temos uma razão para punir
Sempre temos uma razão para pedir
Sempre temos uma emoção para insistir
Sempre temos uma razão  para desistir.

Sempre temos uma razão.
Sempre temos uma emoção.
Sempre temos razão!
Sempre temos emoção!
Razão...

Emoção!

Isaías Ehrich

terça-feira, 30 de julho de 2013

MOINHO, MOLEIRO



Moleiro és o teu nome.
Moinho é tua mente.
Teus pensamentos,
Em cíclicos movimentos
Sincrônicos, ressaltam,
Revelam, perpassam
A ilusão racional
E clamam
Por uma opinião
Que, emocionalmente,
Maquinam os sentidos num ímpeto digital
Aliformizando ideias em significados icônicos...

Moleiro és teu nome.
Moinho é tua mente.
Mesmo retido
Em uma redoma
De aconchegante ambiente
E viajando
Por meio de um  plasma virtual,
Tuas inquietações
E tua sede de liberdade
Consomem-te
De tal modo que
Te prendem
Num universo
Socialmente
Antissocial.
Que, por mais que fujas
E por mais que te rebeles,
Te consomes
com muito cautela;
sem alguma piedade.

Moleiro é teu nome.
Moinho é tua mente.
Angelical é teu semblante
E misterioso é o teu olhar luzente.

Moleiro é teu nome.
Moinho é tua mente.
Utópicos podem ser teus sonhos;
Libertárias, tuas paixões;
Louváveis tuas pretensões.
Enobrecido, teu caráter.
Revolucionárias, tuas ideias.

Socialistamente pujante
É o teu amor,
Notadamente explícito pelos ideais igualitários.
Negligenciado pelos próprios adágios
Amigavelmente compartilhados com fulgor.

Moleiro é teu nome.

Moinho, tua mente...

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Apertos da saudade

O pacato balanço da rede
no alpendre daquele lar
era terno, singelo o deleite
daquele cantinho lá.

Minha avó um café me trazia
cafunés, um colo e a travessia
de tempos de outrora a contar
As peraltices que ela fazia
e as dores da viuvez a chorar.

A guerreira Zefinha singela
dos Pereira do cariri Ceará
trazia força, paz e amor dentro dela
E as agruras da vida ficavam pra lá.

Queria ter um pouco dela
a força a garra e a esperança
a fugacidade e alegrias dos tempos de criança
em tons de vida futura em aquarela.

Vovó Zefinha onde esteja
passa força para seus netos
pois a fragilidade das dores remanescentes
deixa-nos sofridos, amargurados e da vida, muitas vezes, descontentes
Inspira-nos com o seu jeitinho belo
A ter a força da Zefinha sertaneja!

Isaías Ehrich

quinta-feira, 27 de junho de 2013

O fonema da voz sussurrada

Veladas vozes vorazes
Vociferam volumes vibrantes
das vezes em que o valor
dos sentimentos reverberavam
por entre os vagos trêmulos
das vocais cordas a vibrar.
...

Vislumbrava as vertigens  de tua consciência
em sonhos revelados entre pré-vazios
copos de vinho e vodca
a verterem-se entre sobejos
e sabores pensamentos
...

O silêncio grita em mim
e escandaliza os volumes das vozes
a disputar as vezes de atenção.

...

Vendavais, ventanias interiores
ventilam os sentimentos  por vezes feridos,
vedados aos dissabores dos vórtices emocionais
de um ser valentemente covarde.
Forte apenas em verbos e vocábulos insultuosos
que vingam cicatrizes sulcadas
em tempos de vazios sentimentais.

Isaías Ehrich

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Poema interrompido

Calo-me porque os ais de mim
Ecoam os brados de clamor,
Angústias, desilusões e dor
Silenciados no ímpeto  de raiva em estopim.
Que disparou flagelos de um amor
Construído, vivido, crescido, destruído, esquecido
Nas vagas fendas do interior
de dois seres amargurecidos.

Cantei, vibrei, gritei, gozei, chorei,
Mas o amor foi sufocado por indiferenças,
descrenças e vis sentenças.

...
Isaías Ehrich 

domingo, 2 de junho de 2013

Indecifratez

Se me perguntassem o que é amor,
com palavras não saberia responder.
Amor não se traduz num alfabeto escrito,
seja ele a lápis, à caneta, ou pronunciado pelas farpas fonéticas da voz.
amor se traduz no olhar, se contempla no sorriso,
ganha entorno em torno da face acariciada.
Encorpora-se no abraço aconchegante do ser amado.
Amor é uma colcha de retalhos,
a qual, a cada dia se alinhava um pedaço de tecido.
Amor é essa colcha e muito mais.
O cuidado externo fortalece os fios alinhavados...
O zelo prestado  amacia e orna essa colcha,
mesmo que seja confeccionada pela mais rélis estopa.
Amar é deixar-se sentir -se para o outro
(e ao outro sentir).
Amor é abraço, cheiro, beijo, choro também, mas, principalmente  o consolo posterior.
Amor é gozo no lábio do outro da alegria compartilhada;
é cheiro, sabor e sentir...
é molhar de suor derretido pelos afagos
afagando o coração.

1º de abril

Hoje a solidão beijou meu peito
E a solidão abraçou minh'alma.
Durante horas contemplei meu leito
Preparado à base de amor, esperança e calma.

Para não dizer que estava só,
Uma bela enviada de Minerva
No alto de uma parede bruta vela
o meu desconsolo no coração formando um nó.

Patético palhaço eu
que uma surpresa ao amor meu
Meu próprio circo ornei
Com incensos, velas e cristais;
Jantar, massagens e carinhos planejei.
De companhia,  a coruja, apenas, e o breu
E duas míseras gotas lacrimais.

Ruminei madrugada adentro desolação.
Caminhei pela aurora lunar.
Terra, água, fogo e ar...
Nesses elementos procurei encontrar
O acalento para minha desconsolação.

                                                                                                                 Isaías Ehrich

domingo, 21 de abril de 2013

O docente e a identidade profissional: alicerce da educação



Muito se questiona acerca do trabalho docente. Há, no seio da sociedade, o ideário de que o professor é um ser “divino” dotado de dons especiais capazes de repassar às outras pessoas ensinamentos. No entanto, o que essa mesma sociedade esquece (ou quer que os próprios professores esqueçam) é que a docência não é um dom divino, mas uma profissão árdua e merecedora de reconhecimento como todas as demais existentes.
Uma pesquisa feita pela UNESCO (2004) acerca do perfil dos professores brasileiros, revela que a maioria deles é formada pelo sexo feminino, que ganha em torno de dois a dez salários mínimos e que auto discrimina e auto desvaloriza a própria profissão.
            O dado preocupante nessa pesquisa é que a autodiscriminação e a autodesvalorização da própria profissão provocam, diante do cenário social, uma deterioração dos próprios docentes. É preciso que nós, enquanto professores formadores de opinião, convençamo-nos de que o magistério não é algo doado, mas uma profissão.
            Uma das justificativas para tal visão dos próprios docentes, segundo essa mesma pesquisa, é de que os professores, pressionados por baixos salários, por uma formação precária - geralmente aquém das condições concretas de vida de muitos de seus alunos e do meio em que atuam (provocando, muitas vezes, a frustração) – e pelo pouco ou inexistente acesso a bens culturais, além de outras disparidades sociais, culturais e econômicas que configuram a sala de aula e que deixam os docentes isolados enquanto classe e gera neles um processo de perda de identidade profissional que vem se agravando gradativamente dia após dia. Segundo Libâneo (2003), a dignidade e a identidade profissionais precisam ser resgatadas urgentemente para que o professor se sinta motivado e passe motivação para seus alunos; pois, uma vez desmotivado e  subjugado a um sistema e sem uma identidade profissional ele se menosprezará e poderá desestimular os próprios discentes.
            Muitos dos educadores, no entanto, preferem o comodismo a buscar alternativas de ensino, porque não basta apenas o docente tomar conhecimento dos seus problemas. É indispensável que ele tome consciência e possa mobilizar também os seus saberes docentes para melhorar a sua própria condição profissional. Já que professor é, conforme Tardiff (2002), “alguém que sabe alguma coisa e cuja função consiste em transmitir esse saber aos outros”.
            Esse saber docente, ainda segundo Tardiff (2002), é um saber plural, pois é formado por um conjunto de outros saberes, tais como: os saberes profissionais, oriundos da formação profissional (transmitidos pelas instituições de formação de professores - saberes científicos e pedagógicos); saberes disciplinares; curriculares e; experienciais. Essa mesma pluralidade de saberes faz com que o professor ocupe uma posição estratégica nos meandros das complexas relações que ligam as sociedades contemporâneas aos saberes que elas produzem. No entanto, o saber docente e a própria docência ainda são desvalorizados. Isso ocorre, sobretudo, porque o professor ainda não procurou se impor diante da sociedade a qual faz parte, enquanto profissional que é.
            O que se percebe é que a questão do conhecimento dos educadores ainda está muito presa à questão da profissionalização do ensino e aos esforços que os especialistas na área têm em definir a natureza, a origem dos conhecimentos profissionais que servem de diretrizes para o magistério.
            Faz-se necessário que o profissional da educação, sobretudo o professor, encare a si próprio como um sujeito competente, capaz de produzir os saberes específicos à sua labuta diária. Para isso, é preciso que ele reveja seu próprio papel de educador, além de repensar as concepções tradicionais relativas às relações teoria x prática docente. Assim, possa ser que ele repense sobre a sua função social, sobre o ensino e sobre a sua própria organização do seu trabalho no ambiente escolar.
            Nesse repensar, o docente deve rever o seu agir, a sua atuação, a fim de que ele deixe de aplicar apenas o conhecimento teorizado por outros (geralmente pesquisadores universitários) e passe a produzir o seu próprio conhecimento teórico, ou seja, ele poderá elaborar o seu próprio material didático e utilizar os recursos dos quais dispõe para adaptá-los ao seu trabalho. Por exemplo, se o professor for dar uma aula sobre literatura de cordel, ele poderá fazer, juntamente com os alunos, os próprios cordéis; além disso, ele também poderá elaborar adaptações literárias, entre outros exemplos. O importante é ele não se prender aos livros didáticos para ministrar sua aula. Agindo assim, o professor encarará o ensino sob uma nova perspectiva e, quiçá, encare a docência como uma profissão tão importante à sociedade quantos as demais e não como uma dádiva.



EHRICH,  Isaías de Oliveira. Entre os apitos da casa-de-força, a barragem: da análise textual à sala de aula. Campina Grande: UFCG, 2009. P. 216-218.(Dissertação. Mestrado em Literatura e Ensino)

segunda-feira, 25 de março de 2013

SUSSURROS DE CAMARADAGEM


A um espelho moderno de amor.


Dan’úrsula ou Ursula’niel...
Não importa a mistura
O que interessa é a essência!
Se o amor adentra em nossas dependências
Qualquer sentimento vil, sozinho se enclausura.

O perfume do teu carinho que gritou
Em meu peito
Teve a mesma ousadia
Do afago que teu beijo
Em meu fogo provocou
Quando ao meu lado, flor púrpura,
A dormir te vejo.

E, se longe estou,
Não é para te maltratar, Úrsula!
É para que teus olhos,
Saudadosos  de minha imagem,
Brilhem ao ver a ti própria,
Contemplada em meu leito.
E para eu poder te dizer,
Em sussurros de camaradagem:
_ Estou aqui, Amor, meu céu!
_ Estou aqui, teu Daniel!

Isaías de Oliveira Ehrich
17/08/2008
Poema dedicado a Daniel Kremer

sábado, 26 de janeiro de 2013

Não cruzo por acaso o meu silêncio.

Não cruzo por acaso o meu silêncio.
Ele fala  a mim amagamente aquilo que a minha voz não conseguiu traduzir.
Às vezes tropeço em seus gritos acordados dentro de mim
Aturdindo-me os sentidos de tão alto que urge das minhas entranhas

Não cruzo por acaso o meu silêncio.
De tão intenso ele engoliu para si a minha voz
Costurou no véu do seu caminho
Os retalhos de minhas lembranças e sonhos
que eu não soube (re)mendar sozinho.

Não cruzo por acaso o meu silêncio.
Ele vem nas vicissitudes de minhas emoções remoentes,
de minhas transgressões recorrentes,
de minhas diversões mais pungentes,
de minhas solidões mais ausentes.

Não cruzo por acaso o meu silêncio.

Isaías Ehrich


terça-feira, 1 de janeiro de 2013

QUEM ÉS TU?!

Será que tu
és o véu da noite
ou a minha sina
que vem em tom azul
ou em forma de neblina?

Talvez sejas
a brisa da manhã
ou simplesmente sejas
o suave aroma de hortelã.

Quem  sabe, és o pecado
em forma de amor!
Ou apenas um afago
que vem suave e com muito ardor?


Mas enfim,
respondas para mim:
_Quem és tu?!
És dona da minha razão
Ou do meu coração?

Ou tu és o passarinho
que veio fazer um ninho
no lugar mais profundo do meu coração
para proporcionar a paixão?!

Isaías Ehrich
(Texto publicado em NAS ASAS DA IMAGINAÇÃO / EAFS - vol. II, 1999)