segunda-feira, 21 de março de 2011

CLAMOR DO RIO DO PEIXE



Em um vale eu me formei
Nasci, cresci, aprofundei-me
Fortaleci-me, estendi-me.
Dinossauros já se banharam em minhas águas
Envolto ao meu leito,
Cidades se ergueram,
Fazendo de minhas várzeas, seu peito.
Sousa, sob a astúcia de Bento Freire, surgiu
Flori suas ruas, dei-lhe sorrisos!
Usou-me o "caminho do gado"
Para o Alto-Sertão habitar e prosperá-lo.

O tempo passou e fui sendo invadido
Tiraram de mim: minha força, minha extensão,
Minha profundidade e minha alegria.
Fecharam meus caminhos
Sufocaram meus ares
E em mim, fizeram seus lares.




Hoje acusam-me de perigoso, monstruoso.
Blasfemam-me, chamam-me de feio e deixam-me horroroso.
Dizem que sou importante e austero.
Será que ainda prospero?



Alimentam-me com lixo;
presenteiam-me com entulhos;
Perfumam-me com agrotóxicos;
enfeitam-me com cercas, casas e muros
Deixam-me um verdadeiro monturo.


Minhas águas estão turvas e estéreis;
Minhas várzeas, sujas e inférteis;
Minha caudalosidade murcha;
Minha alegria e sapiência, débeis.

Ao me encontrar com o Piranhas,
Conversamos, lamentamos, choramos.
Percebemos que em nossas entranhas
não há nem peixes, nem flores, nem bosques.

Até mesmo São Gonçalo, com suas "águas maternais",
Poluído, sem brio e sem brilho sofre.
Hoje, ainda Ro do Peixe,
sem peixe, sou.
Dia após dia vou
Vivendo meus ais!

Isaías de Oliveira Ehrich

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