domingo, 24 de outubro de 2010

ELEMENTOS

O mar que habita em mim é o das torrentes emocionais que perpassam a razão e vivem maroleando por entre minhas certezas incertas. 
O céu que habita em mim não é o do azul luminoso, mas o céu de inverno setanejo: tempestivo, insanamente esperançoso.
A alma que habita em mim é  a que está sempre no devir, à espera de um chegar demorado. É a mesma que Sócrates procurava entender, aquela que me anima e que se entrelaça a meu spiritus e corporifica meu EU.
A alma que desabita de mim é a da matéria capitalista que vagueia por entre corpos desanimados.
O ar que em mim habita não é a brisa de um entardecer aurorado; é o vendaval  harmônico, compasadamente orquestrado. Aquele que acalenta o cangote das casas e que faz cafunés nas copas das árvores.
O calor que habita em mim é o da humanidade utopicamente sonhada por More e Bandeira.
Parece até besteira, mas esse calor é mais quente que o do habitado nas plagas sertanejas ao Sol do meio-dia em mês de outubro.
A terra que habita em mim é a da fertilidade de sonhos e aridez racional.
A água que habita meu ser é a mesma que faz o Piranhas viver e a mesma que faz fluidificar as esperanças de um outro ser em mim mesmo cont(r)ido.
O fogo que habita em mim é o das fogueiras juninas acendidas em terreiros rurais e rodeadas de conversas de outrora.
A cor que habita em mim é o azul esverdeado de um mar revoltadamente calmo, sereno. O mesmo espelhado em águas de um rio rodeado por mato  e céu claro.
A cor que também habita em mim é o laranja da tropicalidade brasileira, o mesmo de um Partido que elege o Sol como símbolo.
A poesia que habita em mim é a intimista meireliana, a sociológica drummondiana, a agreste cabraliana,  mas também a desbocada e escrachada poesia lucindiana e a poesia do olhar profundo da coruja a penetrar no âmago de um ser.
O ser que habita em mim é um escorpião inquieto que balança os pratos da Balança de Minerva. É a natureza e a beleza da Serra de Santa Catarina a estirar-se por espaços por ela demarcados.
Os elementos que me compoem são os mesmos que habitam em mim e mais uns outros que se aglutinam diariamente para eu me ser Ser.
Isaías Ehrich

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