sábado, 30 de outubro de 2010

Eleições no Palácio dos Afogados

     Num pântano distante do Rio das Águas Rasas, também havia uma disputa. Só que não era entre um hibisco e um girassol. Era entre dois batráquios, um inseto e uma planta. Todos disputavam ao cargo de Chefe do Pântano dos Afogados, que ficava próximo a dois outos pântanos: o da Bacia-Tigela e o do Pinico Emborcado. 
     A disputa pela chefia do Pântano dos Afogados era acirrada. Todos querendo ocupar o cargo, outrora que pertencera ao Cururu e hoje pertencnete ao Caçote. De um lado, estava a Gia (uma espécie de sapo comum para as bandas do Rio das Águas Rasas), que queria ficar no posto ocupado pelo Caçote e manter o seu trabalho; do outro, estava o Sapo-Boi, um tipo esquisito e muito feio de sapo, que pretendia, embora jurasse que não, continuar as ações desenvolvidas pelo Cururu.   
     Nos dois outros extremos dessa disputa quadrangular estavam a Samambaia, que já não aguentava o poderio exacerbado dos batráquios e defendia o Reino Plantae e o Mané-mago, uma espécie de inseto comum para os lados das margens do Rio das Águas  Rasas, embrora originário do Rio Caudaloso das Águas Sujas. O Mané-mago era a voz de todos os outros bichos que não tiveram oportunidade de expor seus pontos de vista nessa disputa.
     Os dias se passam e a disputa pelo cargo a Chefe do Palácio dos Afogados continua acirrada. A Samambaia e o  Mané-Mago  são os dois candidatos que mais se destacam pela postura e pela clareza ao expor o que realmente objetivam fazer, caso consigam ganhar a disputa. Os dois outros ficam apenas vendo "a banda passar" enquanto os melhores debatem suas propostas e defendem suas ideias.
     O dia da eleição chega e todos os moradores daquelas paragens vão escolher o melhor nome para administrar o Palácio dos Afogados.
     Finalizado o dia de votação, a população do pântano se surpreende pela expressividade eleitoral que a Samambaia tivera. O Mané-mago, embora fosse o representante das demais vozes ali presentes, não obtivera muito êxito. Talvez por ser o mais feio de todos, ou por ser o mais velho, embora fosse o mais preparado. A Gia e o Sapo-Boi tiveram o maior número  de votos, demonstrando que o povo daquele pântano ainda não quer se livrar do poderio dos batráqios. 
     Como a diferença de votos entre os batráquios não fora tão grande, devido à expressividade da representante do Reio Plantae,  a disputa ao cargo de Chefe do Palácio dos Afogados  necessitará de um outro pleito.
     O Sapo-Boi, com ares de bom moço, mas mantendo a asquerosidade de sempre, vai à luta. Ludibria, inventa, trapaceia, ameaça e se protege da agressividade da turma da Gia por uma couraça nojenta.
     A Gia, por sua vez, deixa de lado o seu ar de animal choco e tenta ser simpática. Sorri, brinca, conta piadas, dança, mas ainda sustenta a pose de cordialidade, embora seja, veementemete rechaçada pela turma do Sapo-Boi.
     Os batráquios se engalfinham entre si. Jogam sujo um com  outro e posam de Senhores da paz. Quiseram o apoio da Samambaia e do Mané-Mago, mas ambos mantiveram-se imparciais e não apoiaram nem a Gia, nem o Sapo-Boi.
     A disputa chega ao fim e, antes de se saber quem dos dois ganhou a disputa pelo cargo de Chefe do Palácio dos Afogados, há uma certeza: os batráquios continuam a governar o Palácio dos Afogados.
     Aguarda-se um Coração Valente que tenha o pulso, a coragem, o caráter e a simplicidade de aglutinar esssas forças todas e administre com lisura o Palácio do Afogados.

Texto de Isaías Ehrich 

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O hibisco e o girassol

          Às margens do Rio das Águas Rasas, disputavam o mesmo espaço, em uma pequena jardineira,  um girassol e um hibisco. Na disputa, outras flores foram sucumbidas pela briga entre aquelas duas.
         O hibisco sentia-se dono daquela jardineira por estar ali a mais tempo. Tinha se enraizado por todas as brechas possíveis e sugava os nutrientes das demais plantinhas que tentassem prosperar. Era uma planta robusta, mas devido a podas para melhor se ajustar às opiniões dos vários jardineiros que dela cuidavam, o hibisco não crescera em altura, apenas em lateralidades.  Com isso, ele ocupou o espaço da jardineira quase por completo.
         O girassol, por sua vez, fora germinado ali mesmo, após vencer as raízes do hibisco que, pela jardineira, espalhavam-se. Disputando  aquele minúsculo local, o girassol cresceu em direção à primeira luz do sol que desponta do extremo ponto oriental das três Américas. Tal plantinha, não era robusta nem tinha raízes profundas. Era fina, comprida e buscava a direção do sol para melhor se fortalecer.
         Na rinha, ora o hibisco se destacava, ora o girassol. Por ser mais flexível e por poder enxergar as possibilidades de formas diversas, o girassol começou a se destacar mais e mais. Com isso, o hibisco utilizou artimanhas diversas para chamar mais atenção: projetou sua sombra por sobre as gramíneas, as "onze-horas", as margaridas, no intento de "protegê-las" do sol. Além disso,  pendia para um caldeirão que, de repente surgiu por aquelas paragens, pensando ele que aquele objeto servisse para ele fixar suas raízes.
       O girassol, ao ver aquelas artimanhas, também buscou ajuda. Contou com o apoio de um "comigo-ninguém-pode" e da samambaia, que por possuir sempre o tom verde, deixava aquelas margens com ares de esperança e, com isso, ganhava a simpatia de quem por ali passasse.

       A disputa durou um bom tempo, mais precisamente quarenta dias e quinze horas, e nenhuma das duas espécíes de flores ganhou a disputa, pois num dia ensolarado, alguns jovens que foram fazer um pique-nique às margens do Rio das Águas Rasas pularam tanto na euforia pueril que acabaram arrancando o hibisco e transplantando o girassol para outro local.

Isaías Ehrich

domingo, 24 de outubro de 2010

ELEMENTOS

O mar que habita em mim é o das torrentes emocionais que perpassam a razão e vivem maroleando por entre minhas certezas incertas. 
O céu que habita em mim não é o do azul luminoso, mas o céu de inverno setanejo: tempestivo, insanamente esperançoso.
A alma que habita em mim é  a que está sempre no devir, à espera de um chegar demorado. É a mesma que Sócrates procurava entender, aquela que me anima e que se entrelaça a meu spiritus e corporifica meu EU.
A alma que desabita de mim é a da matéria capitalista que vagueia por entre corpos desanimados.
O ar que em mim habita não é a brisa de um entardecer aurorado; é o vendaval  harmônico, compasadamente orquestrado. Aquele que acalenta o cangote das casas e que faz cafunés nas copas das árvores.
O calor que habita em mim é o da humanidade utopicamente sonhada por More e Bandeira.
Parece até besteira, mas esse calor é mais quente que o do habitado nas plagas sertanejas ao Sol do meio-dia em mês de outubro.
A terra que habita em mim é a da fertilidade de sonhos e aridez racional.
A água que habita meu ser é a mesma que faz o Piranhas viver e a mesma que faz fluidificar as esperanças de um outro ser em mim mesmo cont(r)ido.
O fogo que habita em mim é o das fogueiras juninas acendidas em terreiros rurais e rodeadas de conversas de outrora.
A cor que habita em mim é o azul esverdeado de um mar revoltadamente calmo, sereno. O mesmo espelhado em águas de um rio rodeado por mato  e céu claro.
A cor que também habita em mim é o laranja da tropicalidade brasileira, o mesmo de um Partido que elege o Sol como símbolo.
A poesia que habita em mim é a intimista meireliana, a sociológica drummondiana, a agreste cabraliana,  mas também a desbocada e escrachada poesia lucindiana e a poesia do olhar profundo da coruja a penetrar no âmago de um ser.
O ser que habita em mim é um escorpião inquieto que balança os pratos da Balança de Minerva. É a natureza e a beleza da Serra de Santa Catarina a estirar-se por espaços por ela demarcados.
Os elementos que me compoem são os mesmos que habitam em mim e mais uns outros que se aglutinam diariamente para eu me ser Ser.
Isaías Ehrich

terça-feira, 19 de outubro de 2010

MEU CORAÇÃO ESTÁ PARTIDO

É com imensa tristeza, que hoje posto em meu blog esse comunicado.


Comunicado de Afastamento da Presidência Nacional do PSOL




1. Agradeço a solidariedade de muitos diante da minha derrota ao Senado (escrevo na primeira pessoa pois sei, como em outras guerras ao longo da história já foi dito "A vitória tem muitos pais e mães, a derrota é orfã!). Registro que enfrentei o mais sórdido conluio entre os que vivem nos esgotos do Palácio do Planalto - ostentando vulgarmente riquezas roubadas e poder - e a podridão criminosa da política alagoana. Sobre esse doloroso processo só me resta ostentar orgulhosamente as cicatrizes, os belos sinais sagrados dos que estiveram no campo de batalha sem conluio, sem covardia, sem rendição!
2. Comunico à Direção Nacional e Militância do PSOL a minha decisão de formalizar o que de fato já é uma realidade há meses, diante das alterações estatutárias promovidas pela maioria do DN me af astando das atribuições da Presidência. Como é de conhecimento de todas(os) fui eleita no II Congresso Nacional por uma Chapa Minoritária, composta majoritariamente pelo MES e MTL, em um momento da vida partidária extremamente tumultuado que mais parecia a velha e cruel opção metodológica das lutas internas pelo aparato diante dos escombros de miserabilidade e indigência da nossa Classe Trabalhadora. Daí em diante o aprofundamento da desprezível carnificina política foi ora transparente ora dissimulado mas absolutamente claro!

Assim sendo, em respeito à nossa Militância e aos muitos Dirigentes que tanto admiro e por total falta de identidade com as posições assumidas nos últimos meses pela maioria das Instâncias Nacionais ( culminando com o apoio a Candidatura de Dilma!) tenho clareza que melhor será para a organização e estruturação do Partido o meu afastamento e a minha permanência como Militante Fundadora do PSOL, sempre à disposi ção das nobres tarefas de organização das lutas do nosso querido povo brasileiro! Avante Camaradas!


Maceió, 19 de Outubro de 2010


Heloísa Helena

sábado, 9 de outubro de 2010

AOS QUE SONHAM (Isaías de Oliveira Ehrich)


Dão-me nomes femininos.
Quando concretizado, sou Realidade.
Apelidam-me de Intuição,  Quimera e Utopia.
Estou para habitar em seres grandes e pequeninos.
O mundo corre. Mesmo com a pouca idade,
Já tem miopia.

Os que nele vivem não me enxergam,
Não me sentem
Caminho por aí com a alcunha de Oportunidade.
 Os espertos me agarram
Os parvos não sabem que me tem.
Os mais céticos, afirmam que sou Verdade.

Muitos me aprisionam
Em seus egos, a mim, enclausuram
Mas eu fujo!
Escorrego pelas frestas da altivez
E mesmo ferido ou sujo
Reinterpreto-me e volto mais de uma vez.



Quando sou sutil, pensamento.
Revelo-me quando intenso.
Se atordoado, devaneio.
Quando dormem, ressurjo.
Deles, corpo e mente escamoteio.
Se fico tenso,
Sacudo um corpo e trevareio.



Ah, mas mesmo no maior tormento
Ou na plenitude orgástica da alegria,
O interior de alguém permeio.
Para sobreviver, necessito de alimentos.
Dão-me razão, coragem, esperança, amor, impulso, razão e mais outros recheios.
Mas a Perseverança é que mais me delicia!

De mim, todos precisam para viver.
Não importa como seja o humano ser.
Não me interessa onde me ponham.
Estou disponível naqueles que sonham.